Método curatorial [discourse on (curatorial) method]
Roger Buergel
Enquanto Roger Buergel se ajeitava com os microfones, no telão, a imagem fixa
de um quadro pendurado numa parede qualquer causava curiosidade. Era um quadro
abstrato, com uma forma circular amarela como um sol ou mandala em fundo branco,
que parecia copiado destas revistas de aprenda a pintar de banca de jornal.
O mistério logo se desfaz. É a foto de um quadro de uma parede do setor de bagagens
do aeroporto internacional de São Paulo que ele fotografara. Sua mala estava
perdida, com parte do material da palestra, assim precisaria improvisar.
Inicia
sua fala afirmando que o único método curatorial é mesmo a improvisação. Prossegue
apontando que nas conferências e debates da véspera faltou ser citado um elemento.
Falou-se de espaços públicos perturbados ou não, relações políticas da arte,
museus que não são entidades fixas, sobre a ação de quem trabalha neles lutando
sempre para que seja dinâmico. No entanto faltou a expressão exposição (exhibition).
A exposição tem sua dinâmica específica, é uma transmissão entre um aparato
administrativo não no seu aspecto burocrático, mas na sua lógica , algo
para exibir e público. Aqui há grande destaque à educação. Havendo algo para
exibir, é importante trabalhar para manter isso vivo.
A exposição é um meio,
e a noção precisa ser ampliada, já que usualmente exposição ocorre
em vitrinas, mostrando ser esta a lógica da exposição na vida
diária das pessoas. A arte
não está sozinha, devemos conceber a exposição em si mesma, focando
a qualidade da articulação entre objetos, público e instituição.
No
telão aparece agora outra foto, da escadaria de emergência do
Copan, edifício
modernista de Niemeyer. Uma exibição é importante conforme sua
ligação com o
local. Esta imagem capta a relação com o que consideramos modernidade,
uma certa universalidade. A Documenta precisa ter uma linguagem
universal. Os modernistas deram início a uma escala universal,
pela forma e cor. A arte é uma constante
antropológica e capaz de relacionar diferentes tipos de saberes
e locais, e reuni-los. No entanto, os modernistas captaram de
modo errôneo a utopia da modernidade,
pois esta resultou na imposição de padrões homogêneos. Hoje
não precisamos mais
de padrões entretanto urge recuperar o trabalho num horizonte
planetário. Há algo
que nos perturba nesta dimensão que só poderá se resolver se
criarmos uma espécie
de fórum englobando saberes locais, as práticas mobilizadas por
estes saberes. Exposições como a Documenta são capazes de
justapor pessoas e trabalhos de lugares diferentes, com experiências
diferentes num só local. A arte até pode
ter raízes locais, mas trabalha de um modo transformador.
Cada local de onde a arte procede carrega informações demais,
as publicações têm aumentado, muita
coisa está sendo mediada por estas informações. Temos porém,
que pensar na arte com sua capacidade de se comunicar com outras
artes, com possíveis públicos que
se relacionam com as obras sem fixá-las necessariamente como
conhecimento. Assim, podemos acabar com uma retórica das identidades.
O artista iraniano com as
imagens de mulheres, o australiano com fotos, o pintor alemão.
Faz-se necessário
ir além do reino das identidades. A exposição deve animar o espaço
para que o público experimente novas implicações da subjetividade.
A modernidade acabou, ao mesmo tempo desafiamos o terreno comum
de criar algo, visando um horizonte para viver. Muitos artistas
contemporâneos tentam voltar ao moderno, só que enquanto
arqueologia.
Outras imagens aparecem no telão, um conjunto de
fotos referentes ao afresco de Lorenzetti do século XIV, em Siena,
O bom e o mau governo, projeção
de como o mundo da época deveria ser. Um detalhe mostra a alegoria
da justiça
levando cidadãos que compartilham o Estado governando-os acima
deles. As imagens de grupos de pessoas mostram que o poder corre
pelo tecido social, não depende
de um centro, não está em um centro.
Outro grupo de fotografias
retrata jovens marroquinos encostados na entrada da prefeitura
de Amsterdam observando uma manifestação
islâmica na qual chegou
a se queimar um bandeira dos EUA. É um grupo fragmentado, entre
a Prefeitura, que está fechada e a manifestação: não são nem
de um lado, nem de outro. Seria essa a posição que a arte ocupa?
Algo
aqui é importante, a noção de vida nua (bare life), apresentada
pelo filósofo
italiano Agamben, que mostra um poder do soberano, do Estado,
de tirar quase tudo de um indivíduo até sobrar quase nada, uma
vida nua, um corpo inteiramente disponível. Haveria ligação entre
esta precariedade da vida humana e a capacidade de se ultrapassar
pela maneira como vivemos?
Outro conjunto de fotos mostra aspectos
de uma famosa mostra na Argentina, Tucumán arde., realizada em
final de 1968 em Rosário, Buenos Ayres. O grupo de artistas que
a realizou demonstra aqui que uma exposição pode funcionar como
um meio, ligado a um público e uma
agenda própria. Procurou exibir a vida como possibilidade de
ultrapassar as condições vigentes. Tucumán é uma região pobre
da Argentina, importante produtora de açúcar nos anos 1950, mas
contando também com uma estrutura rural de pequenas
propriedades. Nos anos 1960, um projeto de modernização empreendido
pelo governo autoritário do General Ongania (1966-1970) , resultou
no fechamento de usinas de açúcar e fim de pequenas propriedades.
Artistas se mobilizaram, aliados a sindicatos, em torno de ações
destinadas a fazer contra-propaganda da posição
oficial do governo.
Tucumán Arde tinha uma coreografia precisa:
primeiro fizeram contato com líderes locais, pesquisaram, fizeram
um balanço da situação com as
pessoas impactadas. A seguir fotografaram a vida no campo, as
plantações de açúcar,
as usinas abandonadas. Por fim realizaram exposições do material
na sede dos sindicatos em Rosário e Buenos Aires. Em Buenos Aires
a exposição foi fechada
pelas autoridades depois de poucas horas.
Os artistas aqui realizaram
pesquisas sociológicas, coletaram documentos, entrevistaram,
buscando informar na contra-corrente do governo. Conectaram pessoas
no local de onde viviam para criar um terreno comum onde as pessoas
fossem capazes de agir, envolvendo o publico ativamente. Não
há dicotomia entre sociologia política e a arte. A sociologia
não é exterior à arte.
Quanto à exibição, ela demonstra que se
pode criar uma tarefa de reunir pessoas, de aglutinar discussões.
A própria maneira
de exibir as fotos e os documentos criou espaços correspondentes
aos espaços cotidianos dos trabalhadores das usinas
de açúcar, com seus corredores estreitos ladeados por sacos do
produto. A comparação
de uma fotografia da entrada da mostra com a foto de um corredor
formado por sacos de açúcar mostra o que foi aqui chamado de tensão
fenomenológica da exposição.
A seguir foi apresentado um conjunto
de fotos da primeira Documenta. Esta mostra inaugurada em Kassel,
em 1955, foi uma reação ao
trauma da guerra vivida pela população alemã chocada com a revelação
dos crimes do Estado e com a destruição
de suas cidades. A primeira foto mostra a entrada da exibição
com as paredes forradas de retratos de artistas famosos, tentando
mostrá-los em sua humanidade
comum, além de tentar recuperar imagens de rostos que parecia
faltar na vida cotidiana das pessoas do pós-guerra. Ruínas de
bairros da cidade foram cobertas por flores. A visitação somou
em torno de 130 mil pessoas.
Outras fotos mostram outros aspectos
da mostra. Quadros importantes da arte de vanguarda foram emprestados
por museus famosos e eram colocados em paredes precárias
forradas de plásticos ou cartolina, muitas vezes interferindo
com a percepção
do conjunto da obra. A arte colocada sobre materiais baratos,
simples, com plásticos
pretos separando as salas, remetia á idéia de reconstrução. A
disposição das
obras não se preocupou em induzir uma leitura. O ponto crucial
do design da exposição é a
relação com o espectador naquele contexto. Devemos reconhecer
este envolvimento com as subjetividades para assim construirmos
algo.
Sempre haverá um hiato entre
arte e espectador, para que este olhe de modo afirmativo não
pode haver nas exposições
uma imposição a este olhar do espectador.
A penúltima foto mostra
dois meninos sentados em um banco de frente para a câmera,
ambos com os rostos cobertos com seus blusões. São migrantes
da segunda geração
morando na Áustria. Eles não querem ser vistos pelo modo que
sempre foram representados. O fotógrafo não caiu na armadilha
de representar crianças como vítimas ou com
alguma imagem triunfalista. Ele apenas suportou o gesto de protesto
dos adolescentes, gesto que qualquer adolescente poderia fazer
nesta situação. Nós como espectadores
da arte devemos levar este gesto para além dele.
A última foto
desta conferência improvisada mostra duas meninas
brancas fantasiadas de princesas encarando a câmera. Solicitam
um olhar afirmativo, precisam da foto para confirmar que existem.
Uma das meninas é a filha de Roger. Não há experiência
estética sem subjetividade. A arte também olha para si. A exibição é um
meio que mobiliza o sujeito.
Debate:
Platéia: - Você mostrou um público impactado pela guerra, um público talvez
menos sofisticado do que o público de hoje. Mas acho que o que
ainda conta é a qualidade da arte
ali exposta, mesmo sobreposta a simples plásticos. Moro na Argentina
e me lembro de Tucumán Arde. Os artistas queriam participar politicamente
e foram reprimidos por ditaduras. Hoje as pessoas estão conhecendo
isso. Mas os historiadores da arte não se deram conta de que
a ditadura levou à idéia de combater pela violência
e trouxe como conseqüência 30 mil mortes.
- Muito pertinentes foram as colocações sobre o fenômeno da exposição,
não apenas
nos museus. O que caracterizaria uma exposição de museu e estas
formas diferentes de exposição?
Qual o nível de conhecimento para ser fornecido como mediação
ao público, por
exemplo, um diagrama de Tucumán Arde, como parte da obra, está em
espanhol, nem todo publico entenderá, seria necessário traduzi-lo?
Roger
Buergel: Em relação à ultima questão: não é necessário mostrar
tudo e sim criar um espaço
de ressonância do que o público pode ver, levando em conta o
aspecto psíquico
do diagrama citado. Importante seria transmitir informação mostrando
como esta informação é formatada, tentar entender algo com esta
aparência específica. Isso
motiva o espectador a entrar neste universo. Cada obra, cada
peça deve criar
uma impressão. As pessoas assim se identificam com esta produção
e vão começar
a buscar conhecimento por si mesmos. Quanto às exibições em museus,
penso que os museus deveriam cuidar de seus acervos e apenas
montar exposições que tivessem
algum relacionamento com suas coleções e seu patrimônio. Isso
exige pesquisa e educação. Esta é a diferença, uma simples exposição
em um museu, sem relação
com o acervo, é algo muito frágil.
(por Beatriz Scigliano Carneiro)
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