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Fórum Permanente: Museus de Arte; entre o público e o privado

last modified 13/08/2007 08:39


por Martin Grossmann


O Contexto

Apesar do grande sucesso alcançado pela arte brasileira no âmbito nacional e internacional, o seu contexto institucional continua sujeito a grandes flutuações e instabilidades. Importantes museus de arte no país e a própria Fundação Bienal de São Paulo sofrem com as freqüentes crises financeiras e políticas. No entanto assistimos, recentemente, significativas transformações e intervenções nessa frágil, mas extremamente fértil, paisagem cultural como, por exemplo: a ampliação e renovação dos equipamentos culturais, em grande parte facilitada e financiada pelas Leis de Incentivo à Cultura e por outros fundos públicos e privados; a criação e o fortalecimento de instituições privadas de representação oficial da cultura, tanto no âmbito nacional como no internacional; o surgimento e crescimento de instituições culturais atreladas a grandes coorporações financeiras; a existência de tentativas e casos esparsos que buscam atualizar e renovar a linguagem arquitetônica e simbólica relacionada a aparelhos culturais em nossos tempos, como museus, centros ou institutos culturais.

Os parâmetros dessa "indústria da cultura" brasileira em transformação e real crescimento, são complexos, oscilantes e vulneráveis. Vivenciamos um momento de transição, sujeito não só às idiossincrasias das antigas estruturas instituicionais, como também às exigências e desafios de uma situação contemporânea que demanda a internacionalização e profissionalização das atuações culturais. Apesar da melhoria e ampliação dos recursos voltados à formação e à atualização profissional, esses ainda não respondem satisfatoriamente às especificidades e às demandas dessa "indústria". Um mercado editorial em fase de consolidação e o pouco espaço reservado à cobertura especializada na mídia impressa não são suficientes na geração e manutenção de debates críticos e mobilizadores. Muitos assuntos merecem atenção, entre eles destacam-se os problemas que afetam os agentes, os processos e os meios do sistema de arte nacional, principalmente os relacionados à questão dos museus de arte, espécie de "condutores-chaves" de uma cultura pautada na representatividade e perenidade de suas ações e de suas roduções criativas.


O Fórum
O Fórum Permanente: Museus de Arte; entre o público e o privado propõe-se, nesse contexto mutante e flutuante propenso mais para o desarranjo do que para a consolidação de políticas e programas culturais capazes de gerar resultados a médio e longo prazo, a promover a interação dos vários interesses e atuações positivas e transformadoras associados a esse sistema. Tendo como pano de fundo não só o contexto territorial brasileiro, mas também o internacional, a sua intenção prioritária é a de se tornar uma dimensão compartilhada para instituições culturais, seus dirigentes, corpo técnico e demais sujeitos que direta ou indiretamente, conformam esse campo cultural. Como uma plataforma para a discussão crítica e também uma espécie de museu virtual,  o Fórum pretende, portanto, gerar reflexões e ações em torno do papel do Museu de Arte em tempos de espetacularização e virtualização da cultura. Este é o objetivo-chave, mas há, no entanto, um objetivo subliminar e formativo: o de contribuir, de forma significativa e mobilizadora, para o amadurecimento do contexto político-cultural das artes visuais em nosso país, por meio do incentivo de intercâmbios culturais, dentro e fora de suas fronteiras nacionais.

O Fórum Permanente estrutura-se na interação entre eventos presenciais (palestras, debates, seminários e workshops) e seus desdobramentos na esfera virtual, utilizando para tanto espaços culturais da cidade de São Paulo e um site especialmente planejado para esse fim www.forumpermanente.org. O Fórum Permanente terá inicialmente um período de vigência de dois anos. Seu desdobramento futuro será fruto do debate e da construção do próprio fórum. Sua programação será marcada por eventos regulares encabeçados por convidados especiais.

Além disso, o Fórum Permanente pretende também tomar partido da presença de diretores, curadores, pensadores e artistas nacionais e internacionais que São Paulo recebe constantemente. Esses especialistas, ocasionalmente, serão convidados a apresentar suas idéias e experiências em relação a função e situação do Museu de Arte hoje. Todos os eventos serão monitorados e registrados pela organização do Fórum Permanente. O material coletado e editado alimentará o site na Internet desenvolvido especialmente para esse fim. O site, além de documentar sistematicamente os eventos que constituem a programação cultural do Fórum Permanente, é também uma plataforma de discussão continuada. Em 2006, esse ciclo de palestras, workshops, seminários e encontros será encerrado com um Colóquio Internacional em São Paulo, quando estarão presentes seus principais interlocutores e quando as metas visando a continuidade de seu programa serão consolidadas.

Os temas
Os temas a serem debatidos estão diretamente relacionados ao papel e a ação do museu de arte na contemporaneidade. Entre eles merecem destaque:

a. Limites, territórios, interações entre as esferas públicas e privadas da cultura;
b. O museu público hoje;
c. O papel da iniciativa privada na modelação da paisagem cultural
contemporânea;
d. O papel da arte contemporânea na atualização das políticas e ações museológicas;
e. O papel do público no museu contemporâneo
f. Políticas culturais voltadas a museus de arte e congêneres;
g. Ação educativa e cultural em museus;
h. O museu e sua condição interdisciplinar;
i. O museu de arte em um sistema nacional de museus;
j. Museus das "capitais"  versus museus do "interior";
k. Museu e eventos "espetaculares" da cultura (entre eles a Bienal de São Paulo);
l. Museus de arte em rede: integração, correspondências, intercâmbios;
m. O museu entre a cultura material e a cultura na virtualidade das
novas mídias;
n. O museu de arte no século XXI
o. O museu e a cidade
p. Arquitetura de museus, entre outros;

Primeiras atividades (fase experimental: outubro a dezembro de 2003)
O Fórum Permanente iniciou sua programação de forma experimental em outubro de 2003 com a presença de seu primeiro convidado, o Dr. Ulrich Krempel, diretor do Sprengel Museum de Hannover, Alemanha. Sua vinda coincidiu com a visita à São Paulo do diretor da Tate Gallery de Londres, Inglaterra, Sir Nicholas Serrota. Nessa ocasião foi possível organizar três eventos centrados na questão do Museu de Arte na contemporaneidade. O primeiro deles foi uma mesa-redonda O Museu do Século XXI, no pavilhão da OCA no Parque Ibirapuera, como atividade paralela à exposição de acervo da Tate Gallery de Londres, A Bigger Splash: Arte Britânica da Tate, 1960 - 2003 . A mesa contou com a participação do diretor da Tate Gallery, Nicholas Serrota, do diretor do Sprengel Museum Hannover, Ulrich Krempel, do diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães do Recife, Moacir dos Anjos, e de Martin Grossmann, mediador. Serrota apresentou ao público as principais conquistas da política cultural que vem captaneando desde finais da década de 80, responsável, entre outros, pela expansão física do museu.www.tate.org.ukEm uma primeira fase, ainda na década de 80, foram construídas duas filiais em solo Britânico mas distantes da capital: em St. Ives e Liverpool.  No entanto, o que mais atraiu a atenção da imprensa e da comunidade cultural em todo o mundo foi a monumental reforma do prédio que abrigava a antiga usina de energia do Bankside de Londres, às margens do rio Tâmisa, aberta ao público em maio de 2000: a Tate Modern. De forma paradoxal porém, Serrota argumentou que o modelo Tate de espetacularização da cultura, que compete lado-a-lado com o polêmico programa de franquia cultural-comercial do Guggenheim, não deve ser super-valorizado. Um antídoto para essa tendência, ele sugere, seria a relativização e regionalização de políticas museológicas. Essa colocação veio ao encontro da fala de Moacir dos Anjos que procurou mostrar como políticas culturais voltadas a grandes eventos e exposições de arte, que dominam o cenário cultural nacional e internacional nos últimos anos, prejudicam o processo de consolidação de museus regionais, como é o caso do MAMAM do Recife www.mamam.art.br. Por sua vez, Krempel também enfatizou a importância e o papel que museus de arte de médio e pequeno porte possuem na conformação de um contexto cultural em localidades que não integram o circuito cultural e turístico Europeu, nesse caso, Hannover, que é uma cidade de médio porte no Norte da Alemanha. O Sprengel Museum Hannover é um caso exemplar nesse sentido www.sprengel-museum.de. Esse museu possui um acervo representativo de arte moderna e contemporânea européia e norte-americana e desenvolve atividades voltadas, em boa parte, para a comunidade local e circunvizinha, o que o torna um espaço de referência nessa região.


As outras duas atividades em outubro de 2003 foram comandadas por Ulrich Krempel seguindo o formato sugerido pela coordenação do Fórum Permanente: uma palestra e um workshop. A palestra proferida no Instituto Goethe de São Paulo no dia 15 de outubro intitulada "Constituição de Acervo Como Ato Político" enfocou a "saga" da coleção de arte moderna do casal Sprengel, que em 1969 foi doada à cidade de Hannover, motivando a construção do museu inagurado em 1979.  Em plena entre-guerras na Alemanha e em meio a uma situação totalmente adversa à arte moderna, o casal Sprengel inicia sua coleção adquirindo obras de artistas ligados principalmente ao expressionismo alemão. Krempel explorou a importância desse ato não só para a instituição do museu como também no desenvolvimento e atualização de suas políticas culturais. Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado, convidado a atuar como debatedor, ressaltou a singularidade dessa "saga" e sua importância histórica. O workshop, por sua vez,  ocorrido na Pinacoteca do Estado, possibilitou aos inscritos o acesso a informações detalhadas sobre o funcionamento do museu, sua infra-estrutura e ações culturais. Motivados pela generosidade e informalidade do convidado, o público - formado principalmente por profissionais ligados a instituições cullturais — sentiu-se bastante à vontade para indagar sobre vários aspectos do dia-a-dia de um museu. Essa convivência se mostrou bastante proveitosa e deverá ser explorada em futuras edições do Fórum.


Martin Grossmann
São Paulo, 04 de junho de 2004


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