Oficina de curadoria
com Maarten Bertheux (Stedelijk Museum) e Martin Grossmann (Fórum Permanente), e participações de Ivo Mesquita e Felipe Chaimovich

Programa da Oficina de Curadoria
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A oficina de curadoria com Maarten Bertheux, diretor assistente do Stedelijk Museum, e Martin Grossmann, coordenador do Fórum Permanente, aconteceu nos dias 17 e 18 de novembro de 2005, na Estação Pinacoteca, com o apoio do Consulado Holandes e da ArtUnlimited. No evento, que contou com as participações especiais de Ivo Mesquita e Felipe Chaimovich, os participantes trocaram idéias e experiências, discutiram questões relacionadas à atividade curatorial e aos museus de arte a partir do tema “O museu ideal”, visitaram as exposições “Portugal Novo: artistas de hoje e amanhã” com curadoria de Alexandre Melo, na Estação Pinacoteca e "Panorama da Arte Brasileira 2005" com curadoria de Chaimovich, no Museu de Arte Moderna, e conheceram uma coleção particular de arte moderna e contemporânea. Questões discutidas pelo grupo como identidade cultural, constituição e apresentação de acervos públicos e privados, discursos históricos e ficções construídos através da arte, entre outras, e exemplos de abordagens curatoriais e museológicas inovadoras sinalizaram algumas diretrizes para a proposição de um “museu ideal”.
17/11/2005
O evento iniciou-se com a fala de Martin Grossmann agradecendo a disponibilidade de Maarten Bertheux em ministrar a oficina, o trabalho da equipe do Fórum Permanente e a presença de todos os participantes. Em seguida, Angélica de Moraes, Fernanda Curi, Guy Amado, José Augusto Ribeiro, Juliana Monachesi, Luciana Valio, Paula Alzugaray, Paula Braga, Regina Teixeira de Barros, Sylvia Werneck, Taísa Pascale, Vinícius Spricigo e Viviane Sarraf fizeram uma breve apresentação e relato de suas experiências acadêmicas e profissionais. Apesar da diversidade de formações e vivências, podemos indicar como um traço comum no perfil dos participantes a formação em artes visuais ou áreas afins e a atuação no circuito de artes no Brasil, como críticos, curadores e pesquisadores.
Maarten Bertheux narrou a sua trajetória profissional, iniciada como arte-educador, passando pela chefia do departamento de educação do Museu Boijman-van Beuningen, em Roterdã, e o seu trabalho atual como diretor assistente do Stedelijk Museum. O curador holandês assinalou a importância da exposição do acervo deste museu no MAM-RJ, onde as obras de artistas internacionais dialogaram com a produção nacional. As apresentações encerraram-se com Martin Grossmann falando sobre a sua experiência como assistente de curadoria da 16ª Bienal Internacional de São Paulo (1983) e vice-diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP, destacando a sua visão do museu como interface (mediação cultural).
Bertheux deu seqüência aos trabalhos definindo o evento como a possibilidade de troca de experiências e apresentou sua proposta de discutir um museu "ideal", considerando aspectos físicos, políticos e financeiros. Ele narrou também a sua experiência pessoal integrando um grupo de curadores que trabalharam em conjunto para definir o programa de um museu. Foram colocadas pelo ministrante diversas questões que deveriam ser consideradas pelos participantes na proposição deste museu ideal. Listamos abaixo, algumas destas questões que foram ilustradas com exemplos e debatidas pelos participantes:
1) Qual o perfil deste museu? Quais seriam suas dimensões? Ele seria grande, pequeno, um não-museu, um espaço alternativo?
2) Quais os seus limites materiais, logísticos e financeiros?
3) Quais mídias seriam apresentadas (pintura, escultura, instalações, filmes, etc.)?
4) Lembrando que a participação dos artistas é fundamental para as experiências contemporâneas, como seria a atuação do artista neste museu?
5) Qual seria a relação do museu ideal com a realidade político-cultural do local no qual seria instalado?
6) Como definir critérios para julgar trabalhos de outros contextos político-culturais?
7) Como lidar com o patrimônio existente? Como seria a exibição do acervo deste museu?
8) Qual o contexto de exibição deste acervo? 9) O museu manteria a função de apresentar estes trabalhos numa ordem cronológica?
A problemática levantada direcionou à conclusão de que atualmente os museus estão trabalhando com a possibilidade de apresentar uma nova realidade através das obras de arte, ou seja, o curador apresenta a sua leitura da realidade através de uma ficção.
Encerrada a exposição da proposta pelos organizadores, Juliana Monachesi questionou a razão da visita a uma coleção particular numa oficina sobre curadoria. A resposta dos organizadores apontou para a relevância de analisar os critérios de formação de uma coleção, a pertinência destes critérios na formação de acervo de museus e a relação de coleções particulares com instituições públicas. Foi salientado também o fato de que a retirada do Estado do âmbito da cultura revela a importância da participação de colecionadores particulares.
Os participantes encerraram as atividades na Estação Pinacoteca visitando a exposição Portugal Novo: artistas de hoje e amanhã com curadoria de Alexandre Melo.
À noite, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer uma coleção particular de arte moderna e contemporânea que inclui trabalhos de artistas como Guignard, Jorquim Torres Garcia, Vicente do Rego Monteiro, Lygia Clark, Di Cavalcanti, Wesley Duque Lee e Sérgio Camargo, entre outros. O colecionador comentou sobre a compra, venda e troca de obras de arte, suas preferências e o decréscimo da procura por instalações no mercado de arte. A coleção visitada possui um importante acervo referente à produção brasileira dos anos 60, incluindo nomes como Vergara, Collares, Tozzi, Meireles, José Resende e Antonio Manoel. O colecionar destacou o contexto político no qual a obras destes artistas foram produzidas. Martin Grossmann assinalou a presença e a importância de obras como "popcreto" de Waldemar Cordeiro "inserção em circuitos ideológicos - projeto coca-cola" de Cildo Meireles. Merece destaque ainda a presença nesta coleção de uma série de instalações produzidas por artistas contemporâneos brasileiros. Ao ser questionado sobre o fato dos colecionadores brasileiros comprarem exclusivamente obras de artistas nacionais, o colecionador frisou a sua afinidade com os trabalhos adquiridos. A visita foi encerrada com uma discussão sobre a lógica da formação de uma coleção particular e papel destas coleções na formação do acervo de museus públicos.
18/11/2005
O segundo dia do evento iniciou-se com a visita à exposição "Panorama da Arte Brasileira 2005" no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Os participantes da oficina conversaram com o curador da mostra, Felipe Chaimovich, membro do conselho de curadores do MAM.
Felipe falou sobre a relação do museu com as políticas públicas vigentes e sobre o financiamento de exposições, salientando que como curador ele não está familiarizado com questões financeiras, pois o MAM tem uma equipe especializada no assunto. O Panorama foi tomado como exemplo porque tem uma verba pré-definida para a sua realização, proveniente do patrocínio de um banco parceiro do museu. Questionado pelos participantes sobre a política do museu em relação à exibição de seu acervo, Felipe observou que o Conselho do MAM discute e traça diretrizes para a exibição da coleção do museu e outras coleções particulares ou públicas. Sobre as limitações físicas do museu, argumentou que espaços menores são mais facilmente administrados e financiados e indicou a resolução do problema da armazenagem do acervo através do aluguel de um local específico para esta função.
Um breve histórico sobre o Panorama da Arte Brasileira e uma discussão sobre o papel da mostra nos dias de hoje abriram a fala do curador sobre a sua proposta para a edição 2005. Após receber o convite feito pelo museu, em 2004, Felipe Chaimovich fez uma reflexão sobre o que ele chamou de "brand Panorama", ou seja, a imagem do evento como o principal programa do museu e seu "status" com referência nacional na apresentação da arte contemporânea brasileira. Foram mencionados artigos publicados na imprensa local que questionavam a validade de tais programas e exposições bienais, bem como representações nacionais ou exposições de "arte brasileira". O curador enfrentou a questão abordando a problemática nacional com a hipótese de compreender a "nação" como um fenômeno histórico, iniciado com a revolução francesa, no lugar das noções atuais ligadas à problemática da soberania nacional. Nas suas palavras, "nacionalidade é um sentimento baseado em valores", ou seja, um conceito de difícil definição. A arte seria, portanto, parte de uma produção ligada a valores nacionais, cuja referência principal seria a academia francesa, onde oito gêneros – paisagem, costumes, natureza-morta, retrato, alegoria, pintura histórica, emblema e religiosidade – hierarquicamente organizados teriam produzido valores nacionais em termos de arte, fonte de noções como paisagem francesa ou pintura francesa.
Estes oito gêneros surgiram da aplicação do método cartesiano no pensamento sobre a arte, a partir do século XVII, quando Luis XIV fundou a academia de arte francesa. O curador estudou esse sistema estrutural e abordou a problemática do nacional como uma construção política, questionando qualquer tipo de essencialismo.
Em posse destas reflexões teóricas sobre a idéia de "nação", Chaimovich viajou para diversas cidades brasileiras, como Recife, Olinda, Goiânia, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro, entre outras, dialogando com os artistas sobre a sua produção e a vinculação desta com os gêneros. Questionado por Martin Grossmann, ele afirmou que o processo de seleção dos artistas foi feito aleatoriamente, através do contato com museus e universidades, visitas a exposições e indicação de outros artistas.
Para Chaimovich, "nações são ficções"; a nação brasileira, por exemplo, iniciou com a chegada da Família Real e foi consolidada pela fundação da Academia Nacional de Belas Artes pelos franceses. Argüido por Maarten Bertheux sobre a questão da identidade brasileira e a influência européia, ele respondeu que no Brasil, atualmente, não temos mais parâmetros para a definição de uma identidade nacional, como tínhamos no início do século XX (o modelo francês) e entre 1930 e 1979 (uma idéia centralizadora proposta pelo Estado). Algumas razões deste processo de fragmentação da identidade nacional no âmbito das artes visuais seriam: o contato dos artistas brasileiros contemporâneos com a arte internacional e a retirada gradual do Estado do campo da cultura. O debate sobre a questão da identidade nacional seguiu com o questionamento de Bertheux sobre a proposta de uma identidade européia, influenciada por interesses comerciais, e o ressurgimento das identidades locais. Nas suas palavras "a identidade ainda é muito importante".
Martin Grossmann comentou que o curador adotou uma posição conservadora ao considerar o Panorama como uma mostra nacional, em oposição à Bienal Internacional, destacando a proposta de Paulo Herkenhoff na XXIV Bienal, ao adotar uma visão brasileira "antropofágica" para analisar a arte contemporânea. O curador foi questionado ainda sobre a pertinência de enquadrar a produção contemporânea dentro de esquemas tão rígidos como os gêneros, posição defendida por Chaimovich e fundamentada, segundo ele, pelo seu diálogo com os artistas.
Em seguida, os participantes visitaram a exposição acompanhados pelo curador que comentou sobre a tentativa de criar uma experiência contemporânea e experimental a partir de cada um dos gêneros das artes visuais. Durante a visita, muitos participantes notaram que algumas obras escapavam da classificação em gêneros definida por Chaimovich, e uma ‘paisagem’ poderia facilmente integrar o grupo de ‘naturezas-mortas’ ou estavam localizadas muitas vezes nas fronteiras entre as divisões estabelecidas.
Na Estação Pinacoteca, os participantes reuniram-se com Ivo Mesquita para uma conversa sobre a exposição Portugal Novo: artistas de hoje e amanhã, com curadoria de Alexandre Melo, visitada no dia anterior. Ivo falou sobre a sua atuação na Pinacoteca, trabalhando conjuntamente com curadores de outras instituições e na "adaptação" de exposições ao espaço da instituição. Maarten Bertheux relembrou que no caso da exposição do acervo do Stedelijk Museum, o trabalho de Ivo Mesquita foi muito importante, principalmente por acrescentar à mostra obras do acervo da Pinacoteca.
Bertheux falou de seu desconforto inicial ao tomar conhecimento de que a coleção do Stedelijk seria exposta num prédio que abrigara um centro de tortura de prisioneiros políticos. Discutiu-se então o paradoxo que envolve a Estação Pinacoteca: como museu, a instituição tem o papel de preservar a memória cultural e histórica de uma nação. No entanto, a reforma do prédio do DOPS e sobretudo a alteração do nome do edifício para “Estação Pinacoteca” apagaram um pedaço da história, facilitando um esquecimento danoso. Foi proposto que mais eficiente do que uma escultura que funcionasse como discreto “memorial”, a simples manutenção da palavra “DOPS” no título da instituição evitaria o indesejável esquecimento.
Sobre a exposição Portugal Novo, Ivo Mesquita questionou: "qual é a nossa relação com Portugal hoje em termos artísticos?"; e situou a mostra dentro do contexto das teorias pós-coloniais, dos investimentos de empresas portuguesas no Brasil e do programa do governo português e do instituto de arte deste país na divulgação da cultura portuguesa internacionalmente. Ele assinalou ainda a abordagem histórica da exposição, a presença de nomes consolidados como Paula Rego e Helena de Almeida e a divisão das obras no espaço expositivo. A estrutura apresentava a seguinte divisão: 1ª Galeria - corpo e a representação; 2ªGaleria - escultura - apresentando analogias com a produção brasileira, através dos materiais, da presença de "assemblages" e da referência à paisagem; 3ª Galeria - filmes.
Após discutir aspectos ligados à profissão de curador, como a subjetividade das escolhas e a necessidade de critérios claros para justificar a tomada de decisões, os participantes retornaram aos temas debatidos pela manhã: identidade e nação. Questionando a possibilidade da arte contemporânea representar um país, Ivo Mesquita falou dos usos da cultura por parte da política externa de alguns países, e a inclusão de nomes expoentes nestes programas. Discutindo as idéias de "representações nacionais" afirmou: "a arte pode representar qualquer ficção, a nação é uma delas".
Também foram relembradas questões discutidas no dia anterior, como a suspeita dos agentes culturais brasileiros em relação às coleções particulares em contraposição à importância destes acervos no circuito da arte. Muitas vezes, as coleções e as galerias interferem nas mostras internacionais com o objetivo de valorizar determinados artistas e trabalhos e isto acaba impedindo as instituições de adquirir certas obras.
Os participantes encerraram o evento recolocando questões discutidas nos dois dias e descrevendo experiências e referências pessoais. Guy Amado, afirmou a sua dificuldade em descrever experiências ideais e argumentou que seria mais pertinente citar referências importantes para a proposta inicial de pensar um museu "ideal". Muitas abordagens interessantes foram apresentadas como visitas à exposições e "residências" de artistas consagrados que preservam a memória de seus donos, museus com programas diferenciados ou que apresentam as obras ou acervos públicos e privados em contextos inovadores, aspectos físicos dos museus, como suas dimensões, escala, aspectos arquitetônicos e relação com o entorno e o contexto sócio-político, publicações de arte como mediação entre as obras e o público ou como extensão de programas curatoriais, a ficção construída por curadores através das obras e a permanência de um discurso histórico que sustente a apresentação de um determinado acervo. Ao final, houve um consenso entre os participantes ao considerar a proposta original do MASP, idealizada por Lina Bo Bardi, apontada como "ideal" por Martin Grossmann, como uma referência importante.
(por Vinícius Spricigo)
Leia também o relato sobre a oficina "Tão sério como o prazer", do Programa 'Formação para a Cultura' da Agência Espanhola de Cooperação Internacional, ministrada por Chus Martínez, Diretora da Sala Recalde de Bilbao.
